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sobre o disco

Eucanaã Ferraz é nosso poeta mais musical, em vários sentidos do termo. Não apenas pela característica música de sua própria poesia, com as inesperadas quebras de ritmo e surpresas de sentido; mas pelo tanto que conhece e o tanto que já fez com música e músicos, seja como curador de espetáculos, seja como organizador de livros de Caetano Veloso, Vinicius de Moraes e Adriana Calcanhotto, entre outros, com destaque para uma antologia de letras de canção. Sem falar nas próprias letras – e posso atestar, com orgulho de parceiro, sua suprema habilidade de encontrar palavras exatas para os contornos de uma melodia. 

Para um poeta desses, não poderia haver maior alegria, passando dos sessenta anos, do que ser musicado por um compositor de quarenta, uma geração adiante. Neste disco, Gabriel Fernandes traduz seis poemas de Eucanaã para uma outra dimensão, musical e espacial (se se pode falar em espaço para descrever a música). Entremeadas com elas, estão três antológicas leituras de poemas pelo autor, contrastando, no rigor da fala e no silêncio de fundo, com os líricos e dramáticos cenários musicais eletrônicos do resto. Parodiando um auto-retrato de Eucanaã, de Retratos com Erro: “Quando você é a música e a música é você”. Este não é um álbum de canções. É um disco de poesia.


Arthur Nestrovski

julho/2023

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Guardem alguma beleza é um disco com poemas de Eucanaã Ferraz musicados por Gabriel de Medeiros Fernandes. Produção e arranjos de Gilberto Monte. Participação especial de Eucanaã Ferraz na leitura dos poemas "Triunfo", "Sur" e "E" e de Zé Miguel Wisnik ao piano na faixa "Narciso".

faixas/poemas (todos de Eucanaã Ferraz)


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01 QUALQUER OUTRO NOME  

  

Horror deste céu azul por desleixo azul  

porque sempre azul porque o fizeram assim  

e o largaram lá azul porque o esqueceram  

por desamparo azul-nudez que nenhum véu  

ou voto resguarda da ausência de Deus  

sob o nome de Deus - nome que não cessa -  

em nome do qual todo nome é ultraje desarrimo  

vagando por estradas bombardeadas nuvens  

de pó sob um céu sem nódoa. 


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02 TRIUNFO 

leitura de Eucanaã Ferraz

 

  

Da primeira hora do dia a luz atonal, 

aguda do mais alto degrau 

  

desaba. A manhã parece obrigar-se 

por escrito a dissipar os covardes, 

  

que rebentarão audazes, convertidos 

em outros se um tal azul lhes avança 

  

pela boca, narinas e olhos adentro. 

Num dia assim, tudo parece novo, 

  

perto, a história do mundo um traço 

abstrato e, no entanto, inteligível: 

  

movimento sem fim, o só abrir-se 

do aberto: ritmo. 

   

II 

  

Os ponteiros têm pressa, nuvens 

são trapos imprestáveis, o calendário 

marca o início do verão e seus fogos 

excessivamente facão, balão.


Herberto diz que Deus é o cubo 

de açúcar que se dissolve no leite, 

cito enquanto assisto ao medo 

que sobrou da noite desprender- 

  

-se de meus cabelos e no mormaço 

modificar-se num bicho manso. 

Lembro-me de Gilliatt, doido, que 

não podia crer que o ar fosse deserto. 

  

Se o mar é cheio de criaturas, dizia, 

também a atmosfera há de ter 

seus peixes, cardumes diáfanos 

de claridade traspassados, que, 

  

sem sombra, seguem ignorados; 

esvaziássemos a atmosfera, 

pescando-se no ar como num tanque, 

achar-se-iam milhões de seres inexplicáveis 

  

e com eles muitas coisas se explicariam. 

Quanto a mim, imagino que 

talvez pudesse vê-la, a poesia, 

naquele vazio, entre um verso e 

   

III 

  

outro, naquela (nesta) espécie de rua cintilante, 

silenciosa, reta que vai dar fora da folha.


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03 - MUSEOGRAFIA I 

 

E guardaremos as pedras 

e cuidaremos das pedras. 

Emendaremos uns restos 

que se quebraram no tempo 

mas pouco importam as partes 

que se perderam nos saques. 

Nós trataremos o saldo 

com o mais sumo desvelo. 

Nós amaremos a falta. 

São bem mais belos os deuses 

se desprovidos de braços 

e mais sublimes os braços 

quando lhes faltam as mãos. 

A imperfeição nos retrata 

bem mais que corpos completos. 

São as ruínas que dizem 

nosso destino mais certo. 

Por isso amamos os deuses 

que se esculpiram na pedra 

e que na pedra perduram 

iguais a nós - corrompidos.


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04 - SUR 

leitura de Eucanaã Ferraz

 

Nenhum pesadelo hoje.
A folha do sono se espalhe e branca
faça a sequência de horas que você não saberá
porque estará dormindo e assim o balão 
que segurava fugiu da sua mão e o último pensamento 
foi ao chão com as dúvidas
que deixaram de brilhar seus diamantes inúteis.

Nenhum pesadelo hoje.
Seu sono seja um piano só de teclas brancas, 
de notas brancas, todo branco, 
de tal modo que não seja mais um piano, 
será apenas um cachorro também ele dormindo manso 
e nem vontade de saber o que seriam sonatas 
ou sonetos ou coisa que o valha.

Nenhum pesadelo hoje. Nenhum.
Descanse. Esqueça. Desimagine.
Não existem estrelas, praças, fome,
estátuas de mármore, estamos felizes,
esqueça que estamos felizes, estamos
em Buenos Aires, esqueça que estamos
longe de casa, não temos casa.

Você é o amor. O amor precisa dormir
para estar moço no dia seguinte.
Por isso é preciso não pensar no dia seguinte.
Nenhum pesadelo hoje. Você é uma menina
e nem tinha um balão entre os dedos,
nenhum balão escapou dos seus dedos.
Estou aqui do seu lado, acordado.


Nenhum pesadelo. Nem sonhos bons. 

Apenas a folha branca do sono perfeito 

espalhando seu piano branco e perfeito 

como o sono de um cachorro que não sabe 

o que é o amor e ama. Esqueça o amor. 

Você é o amor. Você não é mais uma mulher 

e seus anéis, seus cabelos e seu homem. 

 

Apenas durma. Descanse. Ninguém morreu 

nunca em nenhum lugar e ninguém jamais 

morrerá em lugar nenhum. Não estamos 

em Buenos Aires, não estamos neste quarto 

de hotel em Buenos Aires. Somos o balão 

que escapou de sua mão e sem direção  

flutuamos ignorantes disso porque dormimos.  

 

Ou melhor, você dorme. Eu não. 

Sou um homem que nunca se esquece  

que é um homem e que tem medo. Mas  

estou aqui do seu lado. 

Sou um cão velando o sono de sua dona. 

Sou um piano aceso toda a noite para fazer 

mais cintilante o silêncio em torno de sua dona. 

 

Mas você não deve saber de nada disso. 

E viverá a perfeição de não acordar no meio  

da noite. Não há cães, balões, pianos, esqueça. 

A cidade escapou de seus dedos, descanse. 

Com eles ficaram seus anéis e seus cabelos  

estão lindos. Não há nenhuma hipótese 

de pesadelo hoje. 


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05 - MELANCOLIA 

 

Uma cópia do nosso quarto, cada coisa, e pedaços da paisagem lá fora; 

não se trata de dor ou desespero, é apenas a cópia da minha alegria; 

uma cópia das suas mãos abertas, paradas, uma cópia do seu carinho, 

uma cópia dos seus olhos, uma cópia idêntica do seu modo de olhar, 

em preto e branco, cópias das tardes que hoje eram sempre a luz, 

como tangerinas, das noites em que parece arder um metal diferente, 

sua voz, o cabelo, uma festa, a cópia do seu colar, da sua lágrima, 

uns amigos, você sorri; não são a dor ou o desespero, são só as ruas, 

cópias das ruas, milhões, que deslizam e não dependem  

de nós. 

  

Todos estão cegos. Todos estão loucos. Todos estão mortos. 

Deuses habilidade súplica suborno não têm nenhum poder 

e nos lançamos ao destino, ao veredito da sorte, às leis do acúmulo, 

rios hotéis palaces suítes, reproduções disso e daquilo, do que 

não vemos nem saberemos, imagens não me sirvam de consolo 

mas quando sejam o horror guardem ainda alguma beleza, a cópia 

da beleza de quando éramos nós dois e o mundo; não é o fim, 

é o dedo de ninguém sobre a tecla que nos copia, somos nós 

sem nós em cópias, à perfeita e sem fim ilusão, à perfeição 

da vertigem. 


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06 - RECEBEI AS NOSSAS HOMENAGENS  

 

Único homem acordado nesta noite, o apartamento
apertado parece imenso; vagueio desacordado de tudo
e sobretudo em desacordo comigo, único homem
acordado no mundo; o teatro estreito assim vazio 

parece largo, perambulo absoluto, príncipe estragado;
não dormir é meu palácio; a Dinamarca, diminuta,
parece dilatar-se enquanto palmilho o ar do quarto.


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07 - NARCISO

 para Caetano Veloso e Antonio Cícero

*participação especial de Zé Miguel Wisnik ao piano

 

O aço indeciso 

da água, o vidro aceso 

da sede: 

 

maravilhado, maravilhado 

pelo impossível, pelo impossível 

refletido, refletido 

 

bebe de si 

todo o incêndio: arco e seta, 

alvo e ar.


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08 - E 

leitura de Eucanaã Ferraz

 

Aqui está o silêncio posso vê-lo mesmo no escuro  

posso vê-lo melhor no escuro brilha como o farol  

de um carro no entanto parado sua retina fria  

na noite quente posso ver o fosso a garganta quase  

posso tocar as sílabas que se partem no desvão  

e a fenda gravando nos gestos mágoas aqui está  

na voragem do verão o silêncio posso vê-lo  

no escuro aqui dividindo-nos outra vez  

em dois e.


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09 - O SÓ 

 

Na longa alameda a luz aos pedaços cai 

mole do alto dos postes. Ele olha. 

 

Para que não doa, apenas olha. 

E não dói. 

ficha técnica

Gabriel de Medeiros Fernandes: voz na faixas Qualquer outro nome, Museografia I, Melancolia, Recebei as nossas homenagens, Narciso e O só. Violão em Museografia I. 


Eucanaã Ferraz: leitura dos poemas Triunfo, Sur e E. 


Zé Miguel Wisnik: piano em Narciso. 


Gilberto Monte: produção, arranjos, gravação e mixagem. 


Pedro Serapicos: masterização


José de Holanda: Fotografia


Cláudia Warrak: Design de capa.


Todos os poemas de autoria de Eucanaã Ferraz.

Qualquer outro nome, Museografia I, Melancolia, Recebei as nossas homenagens, Narciso e O só musicados por Gabriel de Medeiros Fernandes.